A Igreja de Cristo é uma igreja bíblica?
Esta é uma questão difícil de responder, pois a designação “Igreja de Cristo” é uma descrição muito ampla. Existem muitas igrejas que se autodenominam “Igreja de Cristo”. Mesmo dentro da associação mais difundida, oriunda do Movimento da Restauração, podem haver diferenças significativas entre elas. Não há dúvidas de que muitos integrantes deste grupo são verdadeiros crentes que desejam adorar, seguir e obedecer a Cristo de forma autêntica. Ao mesmo tempo, há outros, e até mesmo algumas congregações, que adotam práticas, preferências e doutrinas que se aproximam de características cultuais. De forma alguma se está desmerecendo todas as congregações que se identificam como “Igreja de Cristo”. O objetivo deste artigo é expor algumas preocupações e responder a certas questões acerca da Igreja de Cristo do Movimento da Restauração, com base em observações e experiências.
Um problema “menor” mencionado por alguns é a política de não permitir instrumentos musicais nos cultos. Embora seja plenamente aceitável que uma igreja, exercendo a liberdade que Deus concede, opte por não utilizar instrumentos em seu momento de adoração, o problema surge quando alguns membros se opõem de forma fanática a essa prática. Há casos em que se chega ao extremo de declarar que toda igreja que utiliza instrumentos musicais não é verdadeira, bíblica ou piedosa. Tal dogmatismo em questões claramente não essenciais é frequentemente própria de um culto, e não o sinal de uma igreja bíblica sólida.
Outra preocupação é o fato de que alguns dentro da Igreja de Cristo afirmam ser “a única igreja verdadeira”, fora da qual não há salvação. Embora nem todos os membros compartilhem dessa convicção, ela é suficientemente frequente para gerar inquietação. Alguns chegam a argumentar que, por se chamarem “Igreja de Cristo”, essa designação indicaria que a igreja ou denominação seria a única verdadeira igreja do Senhor Jesus. Tal visão é completamente inconsistente com o ensinamento bíblico, já que não há uma única igreja ou denominação que englobe todo o Corpo de Cristo. A “única igreja verdadeira de Cristo” é composta por todos aqueles que, pela graça mediante a fé, receberam pessoalmente Jesus como Salvador. A igreja é feita de verdadeiros crentes em toda parte, independentemente de sua afiliação local ou denominacional. Alegar acesso exclusivo à salvação é outra característica típica de um culto, e não o ensinamento de uma igreja bíblica.
Um terceiro problema, e de extrema importância, diz respeito à ênfase dada pela Igreja de Cristo ao batismo como sendo necessário para a salvação. Seus defensores apontam passagens como Atos 2:38, João 3:5, Marcos 16:16, 1 Pedro 3:21 e Atos 22:16 como evidência bíblica de que o batismo é requisito indispensável. Não se pode negar que o batismo possui grande importância: ele representa um ato inicial de obediência a Cristo, a ilustração da morte e ressurreição de Jesus, uma declaração pública de fé e o desejo de se identificar com Ele. Na mente dos apóstolos e primeiros cristãos, o batismo estava tão intrinsecamente ligado à salvação que ambos eram vistos como inseparáveis. A ideia de alguém receber Cristo como Salvador sem ser batizado era, para a igreja primitiva, completamente estranha.
No entanto, mesmo com essa relevância incontestável, o batismo não é um requisito absoluto para a salvação. Existem interpretações bíblicas plausíveis e contextualmente válidas para as passagens mencionadas que não necessariamente vinculam o exercício da fé ao batismo para a obtenção da salvação. Diversas escrituras afirmam que a salvação é recebida pela fé – sem mencionar o batismo ou qualquer outro requisito (por exemplo, João 3:16; Atos 16:31; Efésios 2:8-9). Se o batismo fosse indispensável, essas passagens estariam em contradição e a Bíblia seria incongruente.
Os defensores da Igreja de Cristo argumentam que, quando a Bíblia fala de salvação “pela fé”, refere-se a uma fé viva, aquela que produz obras de obediência, como o batismo e a confissão (Romanos 10:9-10). Eles não afirmam que o batismo seja uma obra que conquiste a salvação ou que torne a pessoa merecedora dela, mas sim que é uma ação exigida por Deus antes que a salvação seja concedida. Assim, para esses grupos, batismo e confissão não se diferem da fé e do arrependimento – são requisitos necessários para que Deus conceda a salvação. O problema reside no fato de que, embora essa distinção possa parecer sutil em relação à doutrina bíblica da salvação pela graça, ela é fundamental.
Uma pessoa que recebeu a salvação genuinamente produzirá bons frutos, pois as boas obras são o consequência inevitável da salvação (Efésios 2:10). O que diferencia uma “fé viva” de uma “fé morta”, conforme ensina Tiago 2:14-26, é justamente a presença de boas obras. Os defensores da Igreja de Cristo estão corretos ao repudiar a visão de que o simples assentimento intelectual aos fatos do Evangelho é suficiente para a salvação. Contudo, a ideia de que as boas obras devem preceder a salvação implica tornar o processo salvífico dependente da obediência humana – isto é, uma salvação baseada em obras, e não aquela concedida unicamente pela graça, por meio da fé em Cristo. Como declara Tito 3:5, “Ele nos salvou – não por obras de justiça que tivéssemos praticado –, mas conforme a sua misericórdia, mediante a regeneração e renovação pelo Espírito Santo.”
Portanto, as igrejas que se identificam como Igreja de Cristo são, de fato, igrejas bíblicas? A resposta não pode ser generalizada. Muitas congregações são sólidas e fundamentadas na Bíblia, proclamando o verdadeiro Evangelho da salvação somente pela fé, somente pela graça e somente em Cristo. Por outro lado, há aquelas que, com uma ênfase extrema na ausência de instrumentos musicais, com a afirmação de acesso exclusivo à salvação e com uma doutrina que beira um legalismo na questão da salvação, definitivamente não deveriam ser frequentadas. Isso exige do crente discernimento cuidadoso ao considerar integrar uma dessas igrejas. A resposta à pergunta depende, em última análise, do tipo específico de congregação em questão.






