Pergunta
No livro do Êxodo, os israelitas cruzaram o Mar Vermelho ou o Mar de Juncos?
Resposta
A canção de louvor de Moisés após a travessia do mar contém a seguinte linha: “Os carros de Faraó e o seu exército ele lançou ao mar. Os melhores dos oficiais de Faraó foram afogados no Mar Vermelho” (Êxodo 15:4). Esse é um dos mais de vinte versículos do Antigo Testamento que tratam do Êxodo e mencionam o Mar Vermelho. Desde sempre, há dúvidas quanto à precisão de traduzir esses versículos como “Mar Vermelho” em vez de “Mar de Juncos”.
A palavra hebraica suph, cuja raiz se acredita ser de origem egípcia, significava “junco”, especialmente o papiro. Assim, a expressão hebraica yam suph pode ser traduzida como “Mar de Juncos”, “Mar de Juncos” ou mesmo “Pântano de Papiro”. Resta o questionamento: essa expressão, comumente traduzida como “Mar Vermelho”, estaria se referindo, na verdade, ao que hoje conhecemos como Mar Vermelho ou a algum outro corpo d’água? E, mais importante, estariam os estudiosos liberais corretos ao afirmar que yam suph se refere a uma área pantanosa próxima ao Mar Vermelho ou a algum pequeno lago raso nas imediações? Essas questões são cruciais, pois, se os israelitas tivessem escapado do Egito sem a intervenção milagrosa de Deus, a Bíblia conteria exageros e distorções.
Ao analisar os diversos trechos das Escrituras em que o termo yam suph é empregado, percebe-se que ele se refere claramente a um grande corpo d’água: “As águas foram divididas, e os israelitas passaram pelo mar em terra seca, com um muro de água à sua direita e à sua esquerda” (Êxodo 14:21–22). O “muro de água” de cada lado dos israelitas sugere, sem dúvida, profundidade. Posteriormente, lemos que “o mar voltou ao seu lugar… A água voltou e cobriu os carros, os cavaleiros — todo o exército de Faraó que havia seguido os israelitas no mar. Nenhum deles sobreviveu” (versos 27–28). Não há dúvida de que Moisés estava comunicando que, seja qual for o nome — Mar Vermelho ou Mar de Juncos —, o corpo d’água era profundo o bastante para destruir o exército egípcio. Todo o crédito por esse evento milagroso é dado ao Senhor (Êxodo 15:3), e tal fato é frequentemente citado nas Escrituras como exemplo do grandioso poder de Deus (Josué 2:10; Neemias 9:9; Salmo 106:9–12; 136:13–14).
O capítulo 14 de Êxodo descreve de forma clara um evento sobrenatural envolvendo um grande corpo d’água que os israelitas cruzaram em terra seca e que, posteriormente, submergiu os egípcios. Interpretar esse capítulo como se tratasse de um lago raso ou de uma região pantanosa só seria possível se se adotasse um viés pré-concebido contra o caráter milagroso do acontecimento. Êxodo apresenta de maneira inequívoca que o corpo d’água atravessado era de grandes proporções e profundidade. O Mar Vermelho, assim, se encaixa perfeitamente nessa descrição.
Em apoio à tradução “Mar Vermelho” como correta, destaca-se a Septuaginta (LXX), traduzida por volta de 200 a.C. A tradução grega mais antiga da Bíblia Hebraica traduz de forma consistente as palavras yam suph com o termo grego eruthros thalassa, que significa justamente “Mar Vermelho” (confira Atos 7:36 e Hebreus 11:29). Em Êxodo 2:3 e 5, os tradutores da LXX empregaram a palavra hélos para designar uma área pantanosa com juncos. Contudo, ao traduzirem suph no contexto da travessia do mar, optaram por uma expressão diferente (eruthros thalassa), que define de forma específica o “Mar Vermelho”. Os tradutores da LXX, portanto, compreenderam que Moisés se referia ao Mar Vermelho e não a outro corpo d’água.
Quando a LXX é citada no Novo Testamento, os escritores bíblicos, inspirados pelo Espírito Santo, mantiveram as palavras gregas que significam “Mar Vermelho” (não “Mar de Juncos”). Um exemplo disso é o sermão de Estêvão em Atos 7:36. Além disso, Hebreus 11:29 afirma: “Pela fé os israelitas passaram pelo Mar Vermelho em terra seca, mas, quando os egípcios tentaram fazê-lo, foram afogados.” Esses trechos do Novo Testamento reforçam que “Mar Vermelho” é a tradução apropriada.
Outra evidência de que yam suph pode referir-se ao Mar Vermelho aparece em 1 Reis 9:26, onde se relata que o rei Salomão construiu uma frota de navios à beira do Mar Vermelho/Mar de Juncos, na terra de Edom — situação que seria impraticável se aquele corpo d’água fosse meramente uma área pantanosa ou um pequeno lago raso.
Mesmo que se opte pela tradução “Mar de Juncos” em vez de “Mar Vermelho”, existem diversos corpos d’água na região do Egito que os israelitas poderiam ter cruzado. Alguns estudiosos apontam para o Golfo de Suez ou o Golfo de Aqaba (ambos extensões do Mar Vermelho) como possíveis locais de travessia. Ao norte do Golfo de Suez está a região dos Lagos Amargos, e, ainda mais ao norte, o Lago Timsah. Outros sugerem que a travessia possa ter ocorrido em algum corpo d’água na região do Delta do Nilo.
Independentemente da tradução adotada para as palavras yam suph, a Bíblia deixa claro que Deus, de maneira sobrenatural, separou um grande corpo d’água para que os israelitas pudessem atravessar em terra seca e, quando o exército egípcio tentou segui-los, os afogou em uma inundação avassaladora.





