Por que existem relatos contraditórios sobre a morte de Saul em 1 e 2 Samuel?
Pergunta
Críticos da Bíblia às vezes apontam as duas versões da morte do rei Saul como uma “contradição” nas Escrituras. 1 Samuel 31:4 afirma que Saul foi ferido na batalha e, em seguida, tirou a própria vida. Já 2 Samuel 1:10 relata a alegação de um amalequita de ter matado Saul. Trata-se de uma verdadeira contradição na Bíblia? Qual dos relatos sobre a morte de Saul é o verdadeiro?
Resposta
A resposta clara é que Saul tirou a própria vida e que a história do amalequita foi uma fabricação. O amalequita mentiu sobre a morte de Saul, esperando receber uma recompensa de Davi. A Bíblia registra a mentira contada por ele, sem jamais confirmá-la como verdadeira.
A narrativa inspirada da morte de Saul encontra-se em 1 Samuel 31. O historiador relata claramente que Saul tirou a própria vida: “A batalha se intensificou ao redor de Saul e, quando os arqueiros o alcançaram, o feriram gravemente. Então Saul disse ao seu escudeiro: ‘Empunhe a sua espada e atravesse-me, ou estes incircuncisos se aproximarão para me atravessar e me insultar.’ Mas o seu escudeiro, tomado de terror, recusou-se a fazê-lo; assim, Saul agarrou a sua própria espada e se lançou sobre ela. Quando o escudeiro percebeu que Saul estava morto, ele também se lançou sobre a sua espada e morreu com ele. Dessa forma, Saul, seus três filhos, seu escudeiro e todos os seus homens morreram naquele mesmo dia” (1 Samuel 31:3–6). Versos subsequentes mencionam diversas testemunhas do acontecimento.
Em 2 Samuel 21:12, os filisteus são identificados como responsáveis pela morte de Saul: “Os filisteus… feriram Saul em Gilboa.” Saul e seu exército enfrentavam os filisteus no momento, e foi durante esse conflito que Saul tirou a própria vida. Seu suicídio resultou dos ferimentos fatais infligidos pelos filisteus e do temor de ser capturado, torturado e desonrado por seus inimigos.
O capítulo 2 de Samuel apresenta o relato do amalequita que se apresentou a Davi. Segundo o relato bíblico, ele era um homem “do acampamento de Saul, com suas vestes rasgadas e sujeira na cabeça” (2 Samuel 1:2). Ao se aproximar de Davi, ajoelhou-se em sinal de respeito pelo possível novo rei. Então, contou sua versão fabricada sobre a morte de Saul: “Eu estava no monte Gilboa… e lá estava Saul, apoiado em sua lança, com as carruagens e os seus condutores em quente perseguição. Quando ele se virou e me viu, exclamou, e eu lhe perguntei: ‘O que posso fazer?’… Então ele me disse: ‘Fica aqui junto a mim e dá-me o golpe fatal! Eu estou nos últimos momentos, mas ainda vivo.’ Então, fiquei ao lado dele e o matei, pois sabia que, depois de cair, ele não sobreviveria. Tomei a coroa que estava em sua cabeça e a bracelete em seu braço, e as trouxe aqui para meu senhor” (2 Samuel 1:6–10).
Esse relato do amalequita conflita com o relato do historiador bíblico e, portanto, trata-se de uma invenção. A explicação mais plausível é que o amalequita era um oportunista de campo de batalha, que seguia os exércitos em conflito na esperança de coletar os despojos deixados pelos soldados caídos. É provável que ele tenha testemunhado a morte de Saul e ouvido o pedido feito pelo rei a seu escudeiro, para que o matasse antes de cometer suicídio. Após a morte de Saul, o amalequita saqueou seu corpo e, percebendo que poderia obter um prêmio ainda maior de Davi – que se beneficiaria com a queda de Saul – inventou a história de tê-lo matado a seu pedido, exibindo a coroa e a bracelete como “prova” de sua narrativa.
No entanto, o amalequita calculou mal. Embora o rei Saul fosse inimigo declarado de Davi, este não se alegrou com sua morte. De fato, Davi já teve oportunidades de matar Saul, mas se absteve por temor a Deus, pois Saul era o ungido divino (ver 1 Samuel 24:6). Ao invés de receber a recompensa que esperava, o amalequita foi punido: “Davi chamou um dos seus homens e disse: ‘Vá, derrube-o!’ E assim o derrubou e ele morreu. Pois Davi lhe dissera: ‘O teu sangue será sobre a tua própria cabeça! O que o teu próprio lábio testemunhou contra ti, dizendo: ‘Matei o ungido do Senhor’” (2 Samuel 1:15–16). Assim, a mentira sobre a morte de Saul culminou na própria morte do amalequita.
Organizando cronologicamente os eventos relativos à morte de Saul:
- Saul é ferido na batalha e, em seguida, comete suicídio, lançando-se sobre a sua própria espada.
- Um amalequita encontra o corpo de Saul e toma sua coroa e o bracelete.
- No dia seguinte, os filisteus enxovalham o corpo de Saul, decapitando-o, despindo-o de sua armadura, e o afixam ao muro de Beth Shan (1 Samuel 31:8–10).
- Homens de Jabesh-Gileade se deslocam durante a noite, recuperam o corpo de Saul e de seus filhos e o queimam em Jabesh (1 Samuel 31:11–12).
- Os homens de Jabesh-Gileade enterram os ossos de Saul debaixo de um tamareiro na cidade, e os habitantes jejuam por sete dias (1 Samuel 31:13).
- O amalequita chega ao acampamento de Davi, no terceiro dia, com a coroa e o bracelete, relatando sua história fabricada.
- Davi e seus homens jejuam e lamentam até o entardecer.
- Davi ordena a execução do amalequita.
- Davi torna-se rei e presta homenagem aos homens valentes que sepultaram o corpo de Saul.






