Qual é a doutrina da filiação eterna, e ela é bíblica?

A doutrina da Filiação Eterna simplesmente afirma que a segunda Pessoa da Divindade triúnica existe eternamente como o Filho. Em outras palavras, nunca houve um tempo em que Ele não fosse o Filho de Deus, e sempre houve um relacionamento entre Pai e Filho na Divindade. Essa doutrina reconhece que a ideia de filiação não é apenas um título ou papel que Cristo assumiu em um ponto específico da história, mas é a identidade essencial da segunda Pessoa da Divindade. De acordo com essa doutrina, Cristo é e sempre foi o Filho de Deus.

Sim, a filiação eterna é bíblica e é a visão mais amplamente aceita ao longo da história da igreja. Dito isso, existem cristãos evangélicos que se dividem nessa questão. Aqueles que negam a doutrina da filiação eterna não estão negando a natureza trina de Deus nem a divindade ou eternidade de Cristo, assim como os que abraçam a filiação eterna de Cristo não estão implicando que Jesus Cristo seja algo inferior a Deus.

A doutrina de que Jesus existia como o Filho eterno de Deus antes da criação do mundo é afirmada no Credo Niceno (325 d.C.): “Cremos em um só Deus, o Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra, de tudo o que existe, visível e invisível. Cremos em um só Senhor, Jesus Cristo, o único Filho de Deus, eternamente gerado pelo Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. Para nossa salvação e por nossa causa, desceu dos céus, e pela ação do Espírito Santo se encarnou pelo poder do nascimento virginal, tornando-se homem. Foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ao terceiro dia ressuscitou, conforme as Escrituras; subiu aos céus e está assentado à direita do Pai. Voltará em glória para julgar os vivos e os mortos, e o Seu reino não terá fim.” A filiação eterna de Cristo também foi afirmada no Credo Atanasiano, no século V.

Há consideráveis evidências bíblicas que sustentam a doutrina da filiação eterna de Cristo. Em primeiro lugar, muitas passagens identificam claramente “o Filho” como aquele que criou todas as coisas (por exemplo, passagens que fazem referência a Colossenses 1:13–16 e Hebreus 1:2), o que implica fortemente que Cristo já era o Filho de Deus no tempo da criação. O significado mais normal e natural dessas passagens é que a segunda Pessoa da Divindade sempre foi o Filho e, por extensão, o Pai sempre foi o Pai e o Espírito sempre foi o Espírito.

Em segundo lugar, há inúmeros versículos que falam de Deus Pai enviando o Filho ao mundo para redimir o homem pecador (por exemplo, passagens que aludem a João 20:21, Gálatas 4:4 e 1 João 4:10 e 4:14) e entregando Seu Filho como sacrifício pelo pecado (como em João 3:16). Todas essas passagens sugerem fortemente que Cristo era “o Filho” antes mesmo de ser enviado ao mundo. De acordo com passagens como Gálatas 4:4–6, tanto o Filho quanto o Espírito foram “enviados”. O Espírito Santo não “se tornou” o Espírito Santo quando foi enviado para capacitar os crentes no Pentecostes, assim como o Filho não “se tornou” o Filho em Sua Encarnação. As três Pessoas da Divindade triúnica existem por toda a eternidade, e seus nomes – Pai, Filho e Espírito – revelam quem elas são, não apenas um título ou função.

Em terceiro lugar, 1 João 3:8 fala sobre a manifestação do Filho de Deus: “Quem pratica o pecado vem do diabo, pois o diabo vem pecando desde o princípio. A razão pela qual o Filho de Deus se manifestou foi para destruir as obras do diabo.” O verbo “manifestou-se” nesse contexto significa “tornar visível ou revelar”. A ideia é que algo que estava anteriormente oculto foi tornado manifesto. O versículo comunica não que a segunda Pessoa da Trindade “se tornou” o Filho de Deus, mas que o já existente Filho de Deus foi “manifestado” para cumprir o propósito predeterminado por Deus. Essa ideia também é ilustrada em passagens que remetem a João 11:27 e 1 João 5:20.

Em quarto lugar, Hebreus 13:8 ensina que “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre.” Essa verdade também apoia a doutrina da filiação eterna. Se a natureza divina de Cristo é imutável e a filiação é parte essencial de Sua Pessoa, então Ele sempre foi o Filho de Deus. Na Encarnação, o Filho tomou a carne humana, mas Sua natureza divina não mudou, assim como Seu relacionamento com o Pai permaneceu inalterado. Essa mesma verdade é também implícita no propósito de João ao escrever seu evangelho, enfatizando que “essas coisas foram escritas para que vocês creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus; e para que, por crerem, tenham vida em Seu nome.” João não diz que Cristo “se tornou” o Filho de Deus, mas que Ele “é” o Filho de Deus.

Uma das evidências mais fortes para a filiação eterna de Cristo é a natureza trina de Deus e os relacionamentos eternos que existem entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O relacionamento único entre Pai e Filho só pode ser plenamente compreendido diante da perspectiva da eterna Paternidade de Deus e da eterna Filiação de Cristo. De fato, esse relacionamento é a chave para entender a grandiosidade do amor de Deus pelos redimidos. Deus Pai tomou Seu Filho – o mesmo Filho que Ele amava desde antes da fundação do mundo – e o enviou para ser o sacrifício por nossos pecados. A doutrina da filiação eterna torna a graça incrível de Deus ainda mais surpreendente.

Em João 16:28, Jesus fala sobre o relacionamento eterno entre o Pai e o Filho: “Eu vim do Pai e entrei no mundo; agora eu estou deixando o mundo e voltando para o Pai.” Jesus afirma claramente que, em Sua Encarnação, Ele “veio do Pai”; da mesma forma, após Sua ressurreição, Ele retornou “ao Pai.” Se Deus é Seu “Pai”, então Ele deve ser o “Filho” – e esse relacionamento existia antes da Encarnação. Outros versículos que apoiam a filiação eterna de Cristo incluem passagens que mencionam que o Pai glorificou o Filho “antes do mundo existir” e que falam do amor do Pai pelo Filho “antes da criação do mundo”. O relacionamento entre Pai e Filho é, de fato, eterno.

Aqueles que negam a doutrina da filiação eterna frequentemente defendem a visão da Filiação Incarnacional, a qual ensina a pré-existência de Cristo, embora não como o Filho de Deus. Os que defendem essa visão afirmam a divindade e a eternidade de Cristo, mas acreditam que Ele se tornou o Filho de Deus em algum ponto da história. A visão mais comum é que Cristo se tornou o Filho em Sua Encarnação – quando assumiu a carne humana, assumiu também um novo papel como Filho de Deus. Teorias variantes sustentam que Cristo se tornou o Filho em Seu batismo, ressurreição ou exaltação.

Para os defensores da Filiação Incarnacional, a filiação não é vista como parte essencial da identidade de Cristo; eles a interpretam como um papel, título ou função que Ele assumiu em Sua Encarnação. Uma doutrina complementar é a de que Deus se tornou o Pai no momento da Encarnação de Cristo. Ao longo da história, muitos cristãos conservadores aderiram à visão da filiação incarnacional em vez da filiação eterna, entre eles nomes como Ralph Wardlaw, Adam Clarke, Albert Barnes, Finis J. Dake, Walter Martin e, durante certo período, John MacArthur. No entanto, John MacArthur mudou seu posicionamento sobre essa doutrina há alguns anos, passando a afirmar a doutrina da filiação eterna.

Um versículo comumente utilizado para defender a doutrina da filiação incarnacional é Hebreus 1:5, que cita o Salmo 2:7 e parece falar do “geração” do Filho por parte de Deus Pai em um ponto específico no tempo: “‘Tu és Meu Filho, hoje Eu te gerei; e outra vez digo: Eu serei para Ele Pai, e Ele me será Filho.’” Na tradução para o português, Deus diz: “Hoje eu me tornei seu Pai.” Os defensores da doutrina da filiação incarnacional apontam que “gerar” normalmente se refere à origem de uma pessoa, e que um filho geralmente é subordinado ao seu pai. A rejeição da doutrina da filiação eterna seria uma tentativa de preservar a igualdade e a eternidade das três Pessoas na Divindade. Assim, concluem que “Filho” é simplesmente um título ou função que Cristo assumiu em Sua Encarnação e que “filiação” se refere à Sua submissão voluntária e carnal ao Pai (como sugerido em passagens que remetem a Filipenses 2:5–8 e João 5:19).

Um dos problemas com a doutrina da filiação incarnacional é que ela confunde os relacionamentos internos existentes na Trindade. Se o Filho não é gerado eternamente pelo Pai, tampouco o Espírito procede eternamente do Pai por intermédio do Filho. Além disso, se não há um Filho anterior à Encarnação, então também não há um Pai. Contudo, em todo o Antigo Testamento, Deus é referido como o Pai de Israel. Se não pudéssemos usar os nomes Pai e Filho antes da Encarnação de Cristo, seríamos forçados a dizer que Deus escolheu não se revelar como realmente é, mas apenas como viria a se tornar. Levada à sua conclusão lógica, a negação da filiação eterna de Cristo reduz a Trindade à existência de “Número Um”, “Número Dois” e “Número Três”, com os números sendo meras designações arbitrárias.

Acreditamos que a visão mais adequada é a de que o Filho de Deus é, de fato, o Deus Filho. Ele sempre foi o Filho, desde a eternidade passada. Ele é gerado eternamente pelo Pai. Passagens como Hebreus 1:5 (e o Salmo 2:7) são melhor entendidas como uma declaração da divindade de Jesus. O cerne de Hebreus 1 é que “o Filho é a radiância da glória de Deus e a exata representação do Seu ser”. A identificação de Cristo como o único Filho gerado do Pai não é um título conferido a Ele, mas a prova de Sua natureza divina – uma natureza que é tanto eterna quanto imutável.

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