“E ele é a cabeça do corpo, a igreja; ele é o princípio e o primogênito dentre os mortos… o mistério que esteve oculto por longos séculos, mas que agora foi revelado aos santos… Cristo em vocês, a esperança da glória.”
Debater a origem do Cristianismo exige a análise de uma história complexa que abrange o tempo e a eternidade. Em vez de um início simples, a origem do Cristianismo pode ser vista a partir de diversos pontos de vista. O relato do nascimento da igreja durante o Pentecostes revela um verdadeiro festival da colheita, quando aproximadamente 3.000 almas foram reunidas no momento em que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos e discípulos.
Biblicamente, o Cristianismo não se resume a um edifício ou a uma religião, mas se manifesta na igreja, ou seja, na casa de Deus. Essa realidade está encarnada em Cristo e se revela em Seu povo, tanto individual quanto coletivamente. Antes que o tempo tivesse início, a igreja já havia sido concebida na mente de Deus. Então, “quando chegou o tempo plenamente determinado”, Deus enviou Seu Filho unigênito, “nascido de mulher, nascido sob a lei”, para ser o verdadeiro fundador, fundamento e cabeça da igreja. Como o primeiro dentre os escolhidos, o Ungido, Jesus morreu como o cordeiro pascal perfeito, depois de preparar Seus apóstolos por três anos, entregando-lhes a Palavra do Pai e mantendo-os em Seu nome. Após Sua ressurreição, Ele insuflou nos apóstolos o sopro da vida eterna na forma do Espírito Santo, que passou a habitar neles. Assim, eles se tornaram as sementes da nova igreja, que floresceu e se multiplicou ao receber o poder do Espírito para testemunhar, pregar e cumprir a missão que Jesus lhes confiou. Ressuscitado dos mortos, Jesus é o primeiro fruto do Reino de Deus; e, num futuro vindouro, aqueles que pertencem a Ele também ressuscitarão, vivendo eternamente.
O Antigo Testamento profetizava que um “rebento” surgiria do “tronco” de Jessé, pai do rei Davi, e que esse “ramo” daria fruto. Jesus é esse Messias, essa esperança tanto para os judeus quanto para os gentios. Pedro chegou a compreender que Jesus não era apenas um ser humano, o Filho de Davi, mas o próprio “Filho do Deus vivo”. Ao afirmar isso, Jesus afirmou que Ele mesmo seria a Rocha, o fundamento sobre o qual Sua igreja seria edificada. Essa edificação, sobre a Rocha de Israel, é um ensinamento central nas Escrituras.
Alguns escritores apontam que a palavra grega original para “igreja” é ecclesia, que significa “uma assembleia de chamados”, e que ela é formada pelos “eleitos” ou escolhidos. De fato, os eleitos foram retirados das trevas do pecado, mas também fomos chamados para fazer parte da família de Deus como filhos adotivos. “O próprio Espírito testemunha com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” Somos escolhidos, mas Jesus é o primeiro dentre os escolhidos e vive em nós à medida que n’Ele habitamos.
A essência dos cristãos é que eles estão individualmente unidos a Cristo, assim como a igreja, enquanto um todo, está em Cristo. O mistério de Cristo e da igreja é explicado na comparação feita por Paulo com a união de duas pessoas no matrimônio, em que homem e mulher se tornam “uma só carne”. Esse mistério, único em sua essência, mostra que a união entre Cristo e a igreja não é uma simples junção, mas uma comunhão profunda que preserva, ao mesmo tempo, as individualidades dos componentes – assim como um casal que, embora unido, mantém sua identidade própria. Dessa maneira, por meio de Cristo, Deus adota os escolhidos como Seus filhos, e por isso, ao habitar em cada membro dessa comunidade, Ele se torna a nossa esperança de glória.
A conexão entre os termos “igreja” e “cristianismo” é antiga e complexa, mas pode ser resumida na ideia de que os cristãos não frequentam a igreja — eles são a igreja. A maioria dos primeiros discípulos, ao se incorporar à igreja nascente, eram judeus que se consideravam israelitas, descendentes de Abraão, aos quais eram atribuídas as promessas das alianças e a entrega da lei. Inicialmente, reconheceram o Senhor Jesus como Messias e Deus, sem, contudo, adotar o título de “cristãos”. Foi em Antioquia, no primeiro século, que forasteiros passaram a chamar os seguidores do Cristo de “cristãos”. Em relação ao termo “igreja”, enquanto alguns escritores primitivos o usavam para designar o local de culto, o Novo Testamento utiliza este termo para significar a “casa de Deus”. Como membros desse lar universal, os cristãos fincaram raízes e floresceram entre diversos povos e grupos linguísticos ao redor do mundo.
Para além da história, é importante refletir sobre as origens eternas da igreja na mente de Deus. Assim como Deus escolheu Israel, Ele também elegeu a igreja em Cristo “antes da criação do mundo”. Na eternidade passada, Deus decidiu que os eleitos seriam salvos e integrados à Sua família por meio da adoção. Contudo, a igreja nascida no Pentecostes ainda não alcançou seu propósito final em seu desenvolvimento. Ela ainda não se transformou na noiva imaculada de Cristo, conforme o propósito de Deus, estabelecido para que fôssemos santos e irrepreensíveis aos Seus olhos. O cumprimento dessa finalidade profética, que se cumprirá “quando os tempos tiverem atingido sua consumação”, depende única e exclusivamente do propósito e da graça de Deus, concedida em Cristo Jesus desde o princípio dos tempos.
Uma das razões pelas quais a igreja “visível” ainda não é perfeita está na presença de falsos cristãos em suas fileiras. Jesus adverte que, dentro da igreja, coexistirão santos genuínos com pecadores hipócritas e autoenganados. Considerando que Cristo ainda não retornou em poder e glória, e que os eleitos ainda não foram plenamente revelados como filhos de Deus, o mistério de Cristo e da igreja, mantido em segredo por longos períodos, continua parcialmente velado. A revelação completa da igreja ocorrerá somente quando formos transformados. A verdadeira esperança dos cristãos não reside em simplesmente alcançarmos a imortalidade (pois até os condenados serão imortais, mas estarão sem Cristo), mas na certeza de que Cristo vive em nós atualmente.
Essa reflexão final trata do caráter oculto da igreja presente e de sua revelação definitiva. Fomos redimidos, não somos mais escravos do pecado e a morte já não tem domínio sobre nós. No entanto, nosso “corpo do pecado” ou “corpo da morte” ainda não foi totalmente anulado. Continuamos a aguardar a ressurreição e a redenção de nossa carne manchada pelo pecado, que ocorrerá quando o Senhor retornar para nos buscar. Neste momento, seremos transformados para ver o Senhor exatamente como Ele é. Nossos gloriosos corpos espirituais, imperecíveis, serão revelados, e não seremos mais atormentados pelos remanescentes da mente carnal ou pecaminosa. Assim, em um sentido profundo, a igreja — ou o cristianismo, em sua perfeição como a noiva imaculada e glorificada de Cristo — continuará a usar um véu discreto, até que seja chamada para o céu em glória no banquete matrimonial do Cordeiro. Essa promessa está profetizada, onde se ouve a voz de uma grande multidão, como o rugido de águas impetuosas e trovões estrondosos, exclamando: “Aleluia! Pois o Senhor, Deus Todo-Poderoso, reina. Regocijemo-nos, alegremo-nos e proclamemos Sua glória! Pois o banquete do Cordeiro chegou, e Sua noiva se preparou. Linho fino, branco e puro, foi-lhe concedido para vestir”, simbolizando as ações justas dos santos.





