Divinamente Interrompido

A Prática de um Sábado de 24 Horas

Nos últimos meses, tenho praticado um sábado de 24 horas.

Começa toda sexta-feira à noite, quando desligo meu telefone, até sábado à noite. Sem mensagens, sem rolagem, sem respostas rápidas de “só passando”. Apenas desligado.

Antes de Começarmos

Se você leu esta série e se sentiu confuso ou desconectado, tudo bem. Essas palavras podem não ressoar para todos e não têm a intenção de fazê-lo. Alguns de vocês já viveram isso. Já caminharam pelo desenrolar das coisas. Já se sentaram em silêncio. Já conheceram a dor de não saber onde está Deus – e a alegria silenciosa de descobrir que Ele jamais partiu. Se você me enviou um email ou comentou dizendo “Eu também” ou “Amém”, obrigado. Seu incentivo tem sido uma companhia amável, especialmente considerando o esforço que fiz para colocar essa longa experiência em palavras.

Do Desenrolar ao Silêncio

Se os dois últimos posts desta série já contam a história, você sabe do que se trata. Caminhei por um longo e silencioso desenrolar. Primeiro veio o suave desfazer – o lento afrouxar das estruturas, papéis e ritmos em que construí minha vida. Em seguida veio a névoa – a desconstrução e desorientação que retirou tudo aquilo que eu achava saber sobre Deus, sobre mim mesma e sobre a fé que há tanto tempo chamava de lar.

Se o primeiro blog falava sobre o suave desenrolar, este trata do que acontece quando esse desfazer dá lugar ao silêncio.

Na última vez, saímos do familiar. Despedimo-nos do que antes parecia enraizado. Reconhecemos a perda de identidade que ocorre quando a estrutura da vida desmorona. Mas o que vem a seguir não é clareza – é a névoa.

E posso dizer: a névoa não segue as mesmas regras. É a estação em que a velha bússola giratória se descontrola. Onde as orações ecoam e as respostas se dissipam. Onde você se pergunta se está vagando… ou sendo guiado.

Uma Série de Quatro Partes

Este post faz parte de uma série de quatro partes que explora minha jornada profundamente pessoal (e, ao mesmo tempo, comunitária) de transformação espiritual – através da desconstrução, desorientação e reorientação. Cada post é uma janela para uma estação diferente do caminho: o desenrolar, o vaguear, o retornar e o reformar. Espero que, ao ler, você se sinta menos só em suas dúvidas e mais consciente do Deus que caminha conosco em cada capítulo.

Maio é o Mês da Saúde Mental e, normalmente, procuro reservar alguns minutos para refletir sobre tudo que diz respeito à saúde mental, tanto com a organização que lidero quanto no blog. Há muito tempo, a Igreja separou, ignorou, simplificou ou abordou de forma desajeitada a questão da saúde mental. Fico profundamente desapontada com isso e ainda luto para encontrar a verdade através da instrução, da sabedoria e do discernimento de Deus. Nenhum de nós é um problema a ser consertado; somos pessoas a serem compreendidas. Nosso Pai sabe disso, deseja isso e nos chama para esse conhecimento, para que possamos incorporar plenamente Cristo — com todo nosso coração, em nossa totalidade e em toda a nossa inteligência (Mateus 22:37).

“Ser conhecido. Nosso mundo ocidental há muito enfatiza o conhecimento – informações factuais e “provas” – em detrimento do processo de ser conhecido por Deus e pelos outros. Não é de se admirar, então, que, apesar de todos os nossos avanços tecnológicos e da proliferação das mídias sociais, estejamos mais isolados intra e interpessoalmente do que nunca. Entretanto, é somente quando somos conhecidos que estamos posicionados para nos tornar condutos de amor. E é o amor que transforma nossas mentes, possibilita o perdão e tece uma comunidade de pessoas díspares na tapeçaria da família de Deus.”
— Curt Thompson, Anatomy of the Soul

Uma Prática Matinal de Reflexão

Recentemente, em entrevistas e podcasts, uma das perguntas que sempre recebo é sobre quais disciplinas ou práticas sigo e qual sabedoria sugiro aos outros. Minhas respostas variam conforme a audiência, mas hoje quero compartilhar uma prática que aprendi e integro regularmente ao meu momento com o café da manhã.

Sou madrugadora. Hoje, por exemplo, dormi até às 6h (a escola já acabou, e minha mãe está dormindo até mais tarde!), mas, normalmente, meu marido e eu estamos acordados até, no máximo, 4h30, preparando nosso café expresso. Eu escrevo bastante em diário (pois, sendo introvertida, às vezes é difícil encontrar as palavras para me expressar) e, pelo menos uma vez por semana (e às vezes diariamente em épocas difíceis), passo por uma série de perguntas reflexivas para ancorar e regular minha vida, que muitas vezes é hiperativa e desregulada. Essa abordagem não é a única ferramenta; é apenas uma das muitas que encontrei úteis – e que se conecta muito ao Mês da Saúde Mental. Compartilho com vocês as perguntas que faço e as afirmações que me acompanham, registrando tudo em meu diário.

1. Perceber

Consciente: Algo está acontecendo dentro de mim. Estou estressada, chateada, preocupada, sobrecarregada? O que estou sentindo? Nomeio a emoção e me dou o espaço para cuidar de mim.

2. Aceitar

Se meu coração está ferido, é meu dever cuidar dele. Os sentimentos não estão aqui para te controlar, mas para informar Você. Aceito o sentimento como exato e honesto, e então ajo com coragem para olhar para a causa.

3. Permitir

Lembro-me que sou amada e que está tudo bem convidar os outros a conhecerem meus sentimentos e expressá-los em um local seguro. Às vezes, esse lugar é a oração; outras vezes, é com meu marido ou numa comunidade confessional na manhã de terça; às vezes, é com um amigo de confiança. Também me digo que Deus está a meu favor e deseja ser convidado para o que estou sentindo. Ele quer fazer a vida ao meu lado.

4. Atender

Faço perguntas como:

  • “Deus, qual é a sua verdade?”
  • “Senhor, o que eu não estou vendo?”
  • “O que mais pode ser verdade sobre essa situação?”
  • “Esse sentimento me é familiar?”
  • “Será que estou ampliando ou distorcendo o que sinto?”

Coloco de lado minhas verdades percebidas para assumir minha parte no que estou sentindo e, então, tomo medidas para ser mais resiliente (agir).

5. Agir

Depois de passar pelos 4 A’s (Perceber, Aceitar, Permitir e Atender), me pergunto: “Como cuidar de mim de forma efetiva?” E, “Que ações posso tomar para ter o caráter que desejo?”

Escrevo cada um dos cinco passos e cumpro cada etapa – se eu interromper no meio do caminho, não absorvo todo o poder de aprender inteligência emocional e construir resiliência. Algumas manhãs, leva só alguns minutos; outras, parece uma eternidade. Isso é a vida, e também as estações que vivenciamos… tenha graça consigo mesmo enquanto pratica.

A transformação é uma jornada, e é um trabalho árduo. Mas também é uma alegria quando aprendemos a amar o processo e a formar uma parceria com Cristo em Sua obra transformadora. Não há maneira certa ou errada de criar um espaço para cuidar de si mesmo; o segredo é criar consistentemente esse espaço e . Quando fazemos margem para cuidar de nós, aumentamos nossa capacidade de amar e cuidar dos outros.

Sei que sou um exemplo imperfeito dessa prática. Mas não se engane: eu a pratico muito. Minhas experiências passadas e presentes estão repletas de reviravoltas, desregulações e disfunções. Mas, no final, estamos todos juntos nessa. E, juntos, praticaremos viver a partir da Semente transformadora depositada em nós. Amém.

Jesus e a Mulher Samaritana

Conforme aprendemos no estudo de João 4, a história de Jesus tem apelo universal. Na conversa com a mulher samaritana no poço, Jesus revela que o verdadeiro culto não é uma questão geográfica, mas espiritual. A mulher admite que acredita que o Messias, o rei de Israel, está chegando para revelar todas as coisas e, numa revelação surpreendente, Jesus declara: “Eu, que falo contigo, sou ele” (João 4:26). Uau! Oro para que este tranquilo passeio rumo à Samaria lhe proporcione algumas revelações surpreendentes ao ouvir o diálogo entre ela e Jesus. Estamos na última semana e, ao concluirmos nosso estudo de João 4:1-42, reintroduziremos os discípulos na história e escutaremos conversas e aprendizados adjacentes.

O Retorno dos Discípulos a Jesus

Logo os discípulos retornaram, surpresos ao encontrá-lo conversando com uma mulher. Porém, ninguém perguntou: “O que você quer?” ou “Por que está falando com ela?”

Deixando o jarro de água, a mulher voltou para a cidade e disse às pessoas: “Venham, vejam um homem que me contou tudo o que já fiz. Poderia este ser o Messias?”

Enquanto isso, os discípulos o exortavam: “Rabbi, coma alguma coisa.” Mas ele lhes disse: “Tenho comida de que vocês nada sabem.” Em seguida, os discípulos questionaram entre si: “Alguém não lhe trouxe alguma comida?”

“Minha comida”, disse Jesus, “é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir Sua obra. Vocês não têm aquele ditado, ‘Ainda faltam quatro meses para a colheita’? Digo-lhes: abram os olhos e olhem para os campos! Eles estão maduros para a colheita. Mesmo agora, aquele que ceifa recebe sua paga e colhe um fruto que conduz à vida eterna, para que o que semeia e o que ceifa se alegrem juntos. Assim é verdadeiro o dito: ‘Cada um colhe segundo aquilo que semeou’. Eu os enviei para colher o que não trabalharam; outros realizaram o trabalho árduo e vocês colheram os frutos desse esforço.”

Muitos Samaritanos Crenam

Muitos dos samaritanos daquela cidade passaram a crer nele por causa do testemunho da mulher, que dizia: “Ele me contou tudo o que já fiz.” Assim, quando os samaritanos o encontraram, insistiram para que ele permanecesse com eles; e ele ficou por dois dias. Por causa de suas palavras, muitos outros passaram a crer.

Disseram à mulher: “Já não cremos apenas por conta do que você disse, mas agora ouvimos por nós mesmos e sabemos que este homem realmente é o Salvador do mundo.”

“Cristo se assegurou, não por meio de um milagre, mas de uma maneira comum aos homens, através da orientação e do encorajamento de Seu povo aflito.”

Enquanto a mulher se ausentava, Jesus conversava com os discípulos. Ele administrava o tempo de forma excepcional. Não se limitava a esperar o retorno da multidão, mas usava esse momento para ensiná-los. Que exemplo de como devemos administrar nosso tempo de forma sábia – não em uma corrida frenética, mas de maneira pausada, natural e instrutiva. Guardarei esse ensinamento com carinho para meditar e assimilar.

Jesus ensinava aos discípulos sobre Sua obra e como Ele se deleitava nela. Chegando ao poço, já estava cansado, mas a oportunidade de falar com uma alma se apresentou, tornando-se Seu foco principal. Já percebeu que, quando estamos ocupados no trabalho, nem sempre notamos o tempo e esquecemos de comer? Isso me acontece, especialmente com o trabalho terreno. E é curioso como Jesus se dedicava tanto à obra de Seu Pai que a fome física se tornava secundária. Ainda assim, os discípulos – num ato de amor – incentivavam-no a comer e se nutrir. Amo como Deus coloca pessoas ao nosso redor para ajudar a atender nossas necessidades. Que possamos ser essa pessoa para alguém nesta semana!

Por fim, Jesus mostrou aos discípulos como a verdade do evangelho seria semeada tanto nos campos judeus quanto nos samaritanos. Ele os convida a participar da colheita ao seu lado. É lindo que nosso Salvador deseje co-criar beleza e abundância conosco, e que possamos encarar cada dia com esse propósito que ancora nossa vida.

Vivendo com a Água Viva

João 4 nos conta os 42 versículos do relato do encontro no poço. Ao final dessa narrativa, fica claro que cada pessoa tem sua história redentora, e que o reencontro com Cristo é tanto um evento quanto um processo. Essa história não se trata de um encontro milagroso que, de forma mágica, reprograma o coração e a mente de alguém. Trata-se de um momento ordinário na vida de uma pessoa que, ao experimentar Jesus, sai transformada pelo Encontro com a Palavra Viva.

Quando você erra, acaba ficando sozinha com Jesus. Isso te faz perguntar: “Esse é o caminho que quero seguir?” É difícil ouvir quando estamos rodeados de amigos, imersos na vida agitada ou bebendo da fonte do sucesso mundano. Mas quando estamos sozinhos – quando nossos erros e decisões impensadas nos isolam – Cristo pode falar conosco em sussurros de graça.

Pai, agradeço porque nenhum dos meus tropeços, confusões ou erros pode anular a Tua graça. Fala comigo quando o silêncio roubar minha voz. Quando minha alma se sentir como uma noite fria e escura, surpreenda-me. Sature-me. Encontre-me onde estou e mostra-me essa água viva de graça. Amém.

Reflexões Sobre o Encontro no Poço

Esta semana, ao estudarmos os próximos versículos, vou introduzir a vocês a prática da Lectio Divina, um método de leitura das Escrituras que promove intimidade e proximidade com Deus. Não se trata de uma fórmula para a caminhada cristã, mas de uma ferramenta – assim como outras que usamos para estudar a Palavra – que me ajudou a abrir meu coração para o cuidado de Cristo e para a vulnerabilidade de ter um relacionamento próximo com Ele. Que essa prática possa abençoar você assim como abençoou a mim.

Enquanto isso, vamos respirar fundo e ler a passagem conforme a versão NIV (ou, se preferir, escute-a):

João 4:1-14

1 Agora Jesus soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele estava fazendo e batizando mais discípulos do que João, 2 embora não fosse Jesus quem batizasse, mas seus discípulos. 3 Por isso, ele deixou a Judeia e voltou novamente para a Galileia. 4 E passou por uma região da Samaria. 5 Chegou a uma cidade samaritana chamada Sicá, junto ao lugar onde Jacó dera a seu filho José um pedaço de terra. 6 Ali estava o poço de Jacó, e Jesus, cansado da viagem, sentou-se ao lado do poço. Era cerca do meio-dia. 7 Quando uma mulher samaritana veio tirar água, Jesus a convidou: “Você me daria um pouco de água?” (Seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida.)

8 A mulher respondeu: “Você, que é judeu, pede-me a água, sendo que eu sou samaritana.” (Pois os judeus não se associam com os samaritanos.) 9 Jesus replicou: “Se você conhecesse o dom de Deus e quem é que está lhe pedindo a água, teria lhe pedido, e ele lhe daria água viva.” 10 A mulher disse: “Senhor, você não tem nada para tirar água, e o poço é fundo. Onde, então, obteria essa água viva? 11 Não é você maior do que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e dele bebeu, assim como também seus filhos e seu rebanho?” 12 Jesus respondeu: “Todo aquele que beber desta água terá sede novamente, 13 mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede. Ao contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna.”

14 A mulher, então, exclamou: “Senhor, dá-me essa água, para que eu não tenha mais sede e precise voltar aqui para tirar água.”

16 Jesus lhe disse: “Vá, chame seu marido e volte.” 17 A mulher respondeu: “Não tenho marido.” 18 Jesus declarou: “Você falou a verdade: não tem marido. 19 Na verdade, você teve cinco maridos, e o que agora vive com você não é seu marido.” 20 Ela então disse: “Senhor, vejo que você é um profeta. 21 Nossos antepassados adoravam neste monte, porém vocês, judeus, afirmam que o lugar de adoração é em Jerusalém.” 22 Jesus respondeu: “Mulher, creia em mim: vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém vocês adorarão o Pai. 23 Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. 24 Contudo, vem a hora, e até agora chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, pois são esses que o Pai procura. 25 A mulher disse: “Sei que vem o Messias, aquele chamado Cristo; quando ele vier, nos explicará todas as coisas.” 26 Então Jesus declarou: “Eu, que estou falando contigo, sou ele.”

O Retorno dos Discípulos

27 Logo os discípulos retornaram e ficaram surpresos ao encontrá-lo conversando com uma mulher. Contudo, ninguém perguntou: “O que você quer?” ou “Por que está falando com ela?” 28 Ao deixar o jarro, a mulher voltou para a cidade e disse às pessoas: “29 Venham ver um homem que me contou tudo o que já fiz. Poderá ser este o Messias?” 30 Assim, eles saíram da cidade e foram em sua direção. 31 Enquanto isso, os discípulos o exortavam: “Rabbi, coma alguma coisa.” 32 Jesus respondeu: “Tenho comida de que vocês nada sabem.” 33 Os discípulos perguntaram entre si: “Alguém teria lhe trazido comida?” 34 Jesus declarou: “Minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir Sua obra. 35 Vocês não têm aquele ditado, ‘Ainda faltam quatro meses para a colheita’? Digo-lhes: abram os olhos e olhem para os campos! Eles estão maduros para a colheita. 36 Mesmo agora, aquele que ceifa recebe sua paga e colhe um fruto que conduz à vida eterna, para que o semeador e o ceifeiro se alegrem juntos. 37 Assim é verdadeiro o que se diz: ‘Cada um colhe segundo aquilo que semeou.’ 38 Eu os enviei para colher o que não trabalharam; outros realizaram o trabalho árduo e vocês colheram os frutos desse esforço.”

A Crêem Muitos Samaritanos

39 Muitos samaritanos daquela cidade creram nele por causa do testemunho da mulher, que dizia: “Ele me contou tudo o que já fiz.” 40 Quando os samaritanos o encontraram, rogaram que permanecesse com eles; e ele ficou por dois dias. 41 Por causa de suas palavras, muitos outros passaram a crer. 42 Disseram à mulher: “Já não cremos somente por conta do que você disse; agora, ouvimos por nós mesmos e sabemos que este homem é realmente o Salvador do mundo.”

Sobre a Água Viva e o Presente de Deus

No diálogo que se iniciou entre Jesus e a mulher samaritana, enquanto ela estava ali para tirar água, Jesus a convidou a se envolver em uma conversa que despertaria sua curiosidade, não para condená-la.

No versículo 10, quando Jesus diz “se você conhecesse o dom de Deus…”, a palavra grega traduzida como conhecesse significa entendesse. Precisamos entender o dom de Deus. Nesta semana, exploraremos dois aspectos importantes sobre o que precisamos conhecer a respeito deste dom:

  1. O dom de Deus é uma surpresa.

    • Jesus alcança pessoas quebradas, rompendo barreiras religiosas (judeus e samaritanos), sociais (homens e mulheres) e culturais. Ele atravessa essas barreiras enraizadas e diz: “Vamos nos conhecer.” Para os judeus, os samaritanos eram desprezados. Para os homens, as mulheres eram tratadas como propriedade. E para os considerados justos, os marginalizados eram excluídos. E Cristo, com facilidade divina, surpreendentemente ultrapassa cada uma dessas barreiras.
  2. O dom de Deus proporciona a satisfação suprema.

    • A água viva vem pela graça. Porém, o que isso significa? Precisamos estudar esse conceito, pois, enquanto temos acesso fácil à água, o analogia se torna menos impactante na cultura ocidental. Mas nossos corpos são feitos de água; precisamos dela mais do que de alimento. Podemos sobreviver aproximadamente três semanas sem comida, mas apenas três dias sem água. Jesus está comunicando que Ele tem água viva que nossa alma necessita muito mais do que nosso corpo necessita de água. Reflita sobre isso: dentre todos os desejos, anseios e necessidades, Ele oferece algo que satisfaz de forma suprema.
  3. O Cristianismo é questão de graça, não de desempenho, pedigree, conquista, status ou distinção.

    • A mulher samaritana, a última pessoa que se poderia imaginar que receberia uma mensagem de Jesus, foi surpreendida por esse dom divinamente destinado, independentemente de seus erros passados.

Reflexões Sobre “Água Viva”

Agora que delineamos os aspectos de surpresa e satisfação (que discutiremos em posts futuros), vamos aprofundar no conceito de água viva, que é o dom de Deus. Água viva não é um assunto que se pode esgotar em um único post, mas compartilharei algumas citações e analogias que têm falado ao meu coração recentemente.

Meus filhos adoram O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien. Em um trecho do livro, há uma citação que me lembra muito o que Jesus falava sobre a água viva:

“Pippin lançou um olhar de assombro para o rosto agora tão próximo ao seu, pois o som daquela risada era alegre e festivo. Porém, ao olhar para o rosto do mago, viu-se inicialmente apenas linhas de preocupação e tristeza; entretanto, ao observar mais atentamente, percebeu que, por trás de tudo, havia uma grande alegria: uma fonte de divertimento suficiente para fazer um reino rir, se de repente ela jorrasse.”

O trecho em negrito é uma representação, ainda que imperfeita, do que significa ter “água viva” dentro de si. Não é apenas um poço do qual se retira água; é uma fonte que jorra independentemente do que se tente abafar. Seja ao tentar sobrepor a bagunça dos problemas familiares, ao permanecer num caminho sombrio ou ao esconder pecados, a alegria continuará a fluir. Quando escolhemos seguir Cristo, mesmo com todas as nossas falhas passadas, presentes e futuras, certamente teremos momentos em que Cristo jorra dentro de nós, mesmo nas noites escuras da alma. Essa experiência tanto surpreende quanto satisfaz.

Jesus Se Aproxima da Mulher Solitária

Observemos novamente a cena: Jesus, descansando de uma longa viagem, senta-se ao lado do poço. A mulher, que veio sozinha para tirar água – pois, diferentemente das demais, que se apresentam juntas em horários mais amenos – se vê isolada. Em sua solidão, fruto dos seus próprios deslizes, ela é surpreendida pela aproximação de Jesus. Ele usa seus erros para trazê-la para mais perto, redimindo suas falhas para que ela possa ser interrompida de forma divina por Ele.

Quando erramos, ficamos sozinhos com Jesus. Isso nos leva a refletir: “É esse o caminho que desejo trilhar?” É difícil ouvir quando estamos imersos em agitação ou envolvidos nas demandas deste mundo. Mas é justamente na solidão – quando nossas imperfeições nos levam ao isolamento – que Cristo pode sussurrar a graça.

Pai, agradeço porque nenhum dos meus tropeços pode anular a Tua graça. Fala comigo quando o silêncio me calar. Quando minha alma se sentir como uma noite fria e escura, surpreenda-me. Satisfaz-me. Encontre-me onde estou e mostra-me essa água viva de graça. Amém.

Uma Reflexão sobre a Jornada

Ao refletir sobre esse encontro, percebo como, por vezes, deixei o divino de lado em meus estudos. Por muito tempo, tratei as Escrituras como um objeto a ser conhecido, em vez de um sujeito a ser vivenciado – um poder que nos convida a fixar nosso olhar. Se você me conhece, sabe que minhas histórias não surpreendem; são parte da minha jornada, das minhas feridas e dos receios que me ensinaram a me proteger, acreditando que a proximidade tem seu custo.

Nossos corpos marcados pelos traumas precisam de um cuidado íntimo e sintonizado. Todos necessitamos de um Salvador. Não apenas para “ser salvo” e ir para o céu, mas para experienciar o contínuo e restaurador processo de cura dos nossos ferimentos. Jesus sabia disso sobre a mulher no poço. Ele não falou sobre autocuidado, mas desejou que ela se sentisse vista, conhecida e abraçada em segurança relacional por Ele. E, confesso, ainda estou aprendendo isso.

Hoje, percebo que preciso de mais equilíbrio ao escrever e compartilhar essa verdade. Embora estudar e meditar na Palavra seja essencial, não é o único caminho. Sempre fui uma estudante ávida; quando criança, preferia estudar para a prova de amanhã do que socializar. Mas percebi que conectar o coração aos outros traz uma alegria inexplicável. Foi exatamente isso que a mulher do poço experimentou: estar com Alguém que a fazia sentir vista, acalmar sua dor e proporcionar segurança.

“A intimidade com Deus requer que eu confie que Aquele que me conhece profundamente não trairá ou usará minha vulnerabilidade contra mim.”

Ao ler essa história em João 4, costumo pedir ao Senhor que a reviva comigo: “Senhor, sente-se comigo, pois quero ouvir o que devo fazer a seguir, face a face.” Nosso Senhor é gracioso e intercede por nós, mesmo quando não pedimos da forma correta.

O fascinante dessa passagem é que a revelação e o entendimento não são imediatos. Ela chega com o tempo e com conversa. Há um processo redentor que começou no poço, e apenas vislumbramos um pouco dele. Essa mulher, por exemplo, levou muitos a crer no Messias, mas isso não significa que suas feridas não continuassem a operar em outros momentos. As Escrituras nos mostram como Jesus desvenda as feridas profundas, oferece o toque curador e, em seguida, usa uma pessoa quebrada, mas consciente de Cristo, para apontar aos outros o Curador. Assim como nós, que temos uma nova vida, mas ainda necessitamos de um Salvador.

Convivendo com a Imperfeição e a Redenção

Esta história não trata de um encontro milagroso com Jesus num poço que, de forma mágica, reprograma o coração de alguém. Trata-se de um momento ordinário em que uma pessoa encontra a Palavra Viva. Irônica e delicadamente, quando iniciei este trabalho, escrevi sobre como nossa vida comum pode ser transformada quando nos deixamos encontrar por Cristo, mesmo com nossos erros e imperfeições.

Você teve um impacto incrível no Reino? Sem dúvida. Foi transformada de forma milagrosa, sem desejo de abandonar seus velhos caminhos ou sem lutar contra feridas familiares? As Escrituras não afirmam isso de forma simplista. Talvez seja assim – mas não devemos extrapolar além do que foi revelado. Cada um de nós tem uma história redentora que está aberta para que Deus a escreva do jeito que convier. Sua história será, sem dúvidas, impactante para o Reino. Você é vista, é acalmada e está segura.

Naquele dia, Jesus mostrou à mulher o Caminho e ela escolheu trilhar por ele. A redenção é simultaneamente um evento e um processo – uma experiência que envolve a transformação em múltiplos níveis: neurológico, físico, emocional e espiritual. E, agora, fazemos isso com Ele.

Aprendendo com a Prática da Lectio Divina

Nas próximas semanas, ao estudarmos os versículos, apresentarei a vocês a prática da Lectio Divina, um método de leitura das Escrituras que ajuda a fomentar a intimidade com Deus. Embora não se trate de uma “fórmula” para a caminhada cristã, é uma ferramenta, assim como tantas outras, que pode nos auxiliar a abrir nosso coração para o cuidado de Cristo e a vulnerabilidade de um relacionamento próximo com Ele. Minha oração é que essa prática te abençoe, assim como tem me abençoado.

Reflexão Final a Partir do Poço

“Quando uma mulher samaritana foi tirar água, Jesus lhe disse: ‘Você me daria um pouco de água?’ (Seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida.) A mulher respondeu: ‘Você é judeu e eu sou samaritana. Como pode me pedir água?’ Jesus replicou: ‘Se você conhecesse o dom de Deus e quem é que lhe pede água, teria pedido a Ele, e Ele lhe daria água viva.’” (João 4:7-10)

O diálogo se inicia entre Jesus e a samaritana. Enquanto ela foi tirar água, Jesus veio para despertá-la à curiosidade e a engajá-la em uma conversa – não para a condenação.

Após o Encontro

Ao encerrarmos este estudo e o longo passeio por Samaria, somos lembrados de que, assim como a mulher do poço, estamos todos em uma jornada redentora. Não estamos chamados apenas para “ser salvos” e alcançar o céu, mas para experimentar o processo contínuo de restauração que cura nossas feridas. Jesus sentou-se naquele poço desconfortável, não para descansar, mas para nos lembrar que é possível suportar as adversidades.

Como as ovelhas que precisam ser regadas e não conseguem beber sozinhas, também necessitamos de Cristo – Aquele que entende nossas fraquezas, nossas lutas e nossos fardos, convidando-nos a descansar n’Ele. Assim como em Mateus 11:28 (AMPC):

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. [Eu aliviarei, renovarei e refrescarei suas almas.]”

Que possamos escolher ficar ao lado do poço, permitindo que Cristo nos encontre, nos cure e nos fortaleça, pois mesmo em nossa fraqueza, Ele é mais que suficiente.

Reflexões Finais

Cada versículo, cada conversa, cada silêncio é uma oportunidade para experimentarmos a transformação que vem de estar com Jesus. Que possamos, todos os dias, buscar essa intimidade com Ele, permitindo que Sua Palavra viva transborde em nós, surpreenda-nos e satisfaça os anseios de nossa alma.

Que a graça e a paz de Deus estejam com você.

Deixe um comentário