O que a Bíblia diz sobre comer ou beber sangue?

O que a Bíblia diz sobre comer/beber sangue?

No livro de Atos 10, o apóstolo Pedro começou a perceber o quanto o novo Cristianismo se diferenciava do Judaísmo. Enquanto orava em um telhado, aguardando o almoço, ele teve uma visão: um lençol foi baixado do céu contendo diversos tipos de animais. Uma voz o incentivou a comer. Pedro hesitou, lembrando que alguns dos animais apresentados eram proibidos pela lei judaica. Três vezes o lençol foi baixado e, três vezes, Pedro recusou comer.

A visão teve um duplo propósito. O mais evidente era que, sob a Nova Aliança, as regras cerimoniais relativas às restrições alimentares haviam sido revogadas – os cristãos seriam reconhecidos por seu amor (João 13:35), e não pelo que comessem. O segundo significado, mais profundo, era que a salvação de Cristo estava aberta tanto aos gentios quanto aos judeus. Imediatamente após essa visão, Pedro recebeu a visita de mensageiros de um centurião gentio chamado Cornélio, que estava pronto para aceitar Cristo.

Os cristãos que apreciam alimentos de origem animal absorvem bem essa mensagem da visão de Pedro. No entanto, ela não trata especificamente da questão do consumo de sangue, a não ser que este assunto esteja incluído na revogação das leis kosher.

A primeira proibição bíblica de consumir sangue aparece em Gênesis 9:2-4, quando Deus disse a Noé: “Tudo o que se move e vive servirá de alimento para vocês. Assim como lhes entreguei as plantas, agora dou a vocês tudo. Mas não devem comer a carne com o seu sangue.” Essa proibição provavelmente referia-se ao consumo de sangue cru (isto é, de carne mal cozida). Pela primeira vez, os animais passaram a ser uma fonte de alimento permitida, e Deus queria assegurar que Noé não consumisse a carne crua. Um Targum judaico comenta esse versículo: “Mas a carne arrancada de uma fera viva no momento em que nela ainda está a vida, ou a carne retirada durante o abate, antes que todo o seu fôlego se esgote, não deves comer.”

Mais adiante, a proibição de Gênesis 9:4 é reafirmada na Lei de Moisés. Em Levítico 17:14, a razão por trás do mandamento é explicada: “Porque a vida de toda criatura está no seu sangue; ele é a sua vida.”

É importante compreender que os crentes do Novo Testamento, em Cristo, encontram liberdade em relação à Lei e devemos “manter firme” essa liberdade (Gálatas 5:1). Não estamos mais sob a Lei, mas sim sob a graça. “De maneira que ninguém os julgue pelo que comer ou beber” (Colossenses 2:16). Assim, comer um bife ao ponto, uma morcela, panquecas de sangue, sopa de sangue ou tofu de sangue pode não ser do agrado de todos os cristãos, mas é permitido.

Há outro trecho a se considerar. Em Atos 15, surgiu uma questão na igreja primitiva sobre o necessário para a salvação. Especificamente, seria necessário que o gentio se submetesse à circuncisão para ser salvo (verso 1)? O problema surgiu na igreja de Antioquia, na Síria, que contava com um grupo misto de convertidos judeus e gentios. Para resolver essa questão tão importante, os líderes da igreja se reuniram em Jerusalém para o primeiro concílio. Concluíram que os gentios não precisavam seguir a Lei Mosaica; a circuncisão não era parte da salvação (verso 19). Porém, no verso 29, os líderes elaboraram uma carta com as seguintes instruções para os gentios de Antioquia: “Abstende-vos de alimentos sacrificados a ídolos, de sangue, de animais estrangulados e de imoralidade sexual. É prudente que evitem tais práticas.” Nesse contexto, é fundamental lembrar que esses quatro mandamentos tratavam de práticas pagãs associadas à idolatria. A maioria, senão todos, dos convertidos gentios em Antioquia haviam sido salvos do paganismo. Os líderes da igreja exortavam os novos crentes gentios a romper definitivamente com seus antigos costumes, para não ofenderem os irmãos judeus na igreja. Tais instruções não visavam assegurar a salvação, mas promover a paz na igreja primitiva.

Mais tarde, Paulo tratou da mesma questão. Ele ensina que é perfeitamente aceitável consumir carne oferecida a ídolos: “Nada é impuro por si mesmo” (Romanos 14:14). Entretanto, se comer tal carne levar um irmão em Cristo a violar a sua consciência, Paulo “não comerá mais carne, para não os fazer tropeçar” (1 Coríntios 8:13). Essa preocupação era a mesma que motivara os líderes de Jerusalém em Atos 15: se os crentes gentios consumissem carne com sangue, os crentes judeus poderiam sentir-se tentados a violar sua consciência e participar do banquete. A consciência é algo sagrado, e não devemos agir contra ela (ver também 1 Coríntios 8:7-12 e Romanos 14:5).

Em resumo, optar por um bife mal passado ou bem passado é uma questão de consciência e de gosto. O que entra na boca não nos torna impuros (veja Mateus 15:17-18). Comer um pudim preto, por exemplo, pode não ser do agrado de todos, mas não é considerado pecado. Vivemos sob a graça e temos liberdade em Cristo. Outros podem ter convicções diferentes sobre alimentos e bebidas e, nesse caso, voluntariamente limitam sua própria liberdade para melhor servir a seus irmãos e a Deus. “Procuremos, pois, promover aquilo que conduz à paz e à edificação mútua” (Romanos 14:19).

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